| |
O
'Hogar de Cristo' (Lar de Cristo)
No mês anterior à sua renúncia, tal como ele mesmo o relata, numa
noite fria e chuvosa, aproxima-se dele "um pobre homem com uma
amigdalite aguda, tiritando, em mangas de camisa, que não tinha onde
amparar-se". A sua miséria estremece-o. Poucos dias depois, aos 15
de outubro, dando um retiro para senhoras, na Casa do Apostolado
Popular, fala, sem tê-lo previsto, sobre a miséria que existe em
Santiago e a necessidade da caridade: "Cristo vaga por nossas ruas
na pessoa de tantos pobres, enfermos, desalojados do seu mísero
cortiço. Cristo, encorrugido debaixo das pontes, na pessoa de tantos
meninos que não têm a quem chamar 'pai', que carecem desde muitos anos
do beijo da mãe sobre a sua testa… Cristo não tem lar! Não queremos
dar-lho nós, os que temos a dita de ter um lar confortável, comida
abundante, meios para educar e assegurar o porvir dos filhos? 'O que
fizerdes ao mais pequeninos dos meus irmãos, o fareis a mim, disse
Jesus". E assim nasce o Lar de Cristo. Na saída do retiro, recebe
as primeiras doações - um terreno, vários cheques e jóias - por
parte das senhoras presentes.
Em maio de 1945, o Arcebispo de Santiago, Mons. José Maria Caro benze a
primeira sede do Lar de Cristo. No ano seguinte, inaugura-se a
Hospedaria da rua Chorrillos. Pouco a pouco, o Lar de Cristo crescerá
até níveis admiráveis, prestando um inestimável serviço aos mais
pobres e criando uma corrente de solidariedade que atualmente superou as
fronteiras da nossa pátria. O seu propósito é não se contentar
somente com dar alojamento: "Uma das primeiras qualidades que se
deve devolver aos nossos indigentes é a consciência do seu valor de
pessoas, da sua dignidade de cidadãos, mais ainda, de filhos de
Deus". Os meninos do Mapocho deviam chegar a ser operários
especializados.
Entretanto continua o seu trabalho formativo entre os jovens, e
prossegue com a pregação de retiros. Em junho do mesmo ano, num
bate-papo de preparação para a festa do Sagrado Coração, recorda aos
estudantes a sua responsabilidade social, responsabilidade que é uma
conseqüência das palavras de Cristo: "O dever social do
universitário não é senão a tradução concreta na sua vida de
estudante hoje e de futuro profissional, amanhã, dos ensinamentos de
Cristo", e convida cada um a "estudar a sua carreira em
função dos problemas sociais próprios do seu ambiente
profissional". Pede aos jovens uma grande generosidade, com a
certeza de que "quem olhou profundamente uma vez sequer os olhos de
Jesus , não o esquecerá jamais".
Em setembro de 1945, o Pe. Hurtado faz uma viagem nos Estados Unidos e
em outros países da América Central. Em outubro chega em Dallas e
começa uma nutrida agência de entrevistas e visitas e instituições
de beneficência, semelhantes ao Lar de Cristo. Aos 29 de janeiro
começa o seu retiro espiritual em Baltimore. A viagem de volta de New
York para Valparaíso, a bordo do barco "Illapel". Durante
essa travessia escreve: "Cada vez que subia ao ponte de comando e
via o trabalho do timoneiro, não podia fazer a menos que uma
meditação fundamental, a mais fundamental de todas, a que marca 'o
Rumo da vida'".
|
|
| |
Apostolado social
Volta aos seus nutridos trabalhos habituais: pregação de retiros,
direção espiritual de jovens, preocupação pelas vocações
sacerdotais, o Lar de Cristo, aulas no Colégio Santo Inácio e na
Universidade Católica, etc. Aos 13 de junho de 1947, dia do Sagrado
Coração, junto com um grupo de universitários, constitui a Ação
Sindical e Econômica Chilena (ASICH), como um modo de buscar "a
maneira de realizar um trabalho que fizesse presente a Igreja no terreno
do trabalho organizado".
Entre julho de 1947 e janeiro de 1948, o Pe. Hurtado realiza uma viagem
na França para assistir a uma série de importantes congressos e
semanas de estudo. A seu superior, o Pe. Álvaro Lavín, solicita a
permissão para a viagem: "Será muita audácia pedir-lhe que pense
se seria possível que assistisse este servidor o Congresso de
Paris?". Outorgada a permissão, parte para a França aos 24 de
julho de 1947. Participa da 34ª Semana Social em Paris, onde entabula
conversas com o Cardeal E. Suhard, Arcebispo de Paris; passa uma semana
em L'Action Populaire (centro de ação social organizado pelos
jesuítas franceses, atualmente CERAS), e logo participa da Semana
Internacional dos jesuítas em Versalhes, onde o Pe. Hurtado fala em
duas oportunidades acerca da situação do Chile. A sua exposição é
descrita como "um grito de angústia, mas, ao mesmo tempo, uma
irresistível lição de zelo apostólico puro e ardentemente
sobrenatural", e é considerado uma das personalidades mais
notáveis do encontro. Aos 24 de agosto, passando por Lourdes, viaja
para a Espanha, e, de regresso, permanece dois dias com os sacerdotes
operários em Marselha; em setembro assiste ao Congresso de Pastoral
Litúrgica, em Lião, e participa da Semana de Assessores da Juventude
Operária Católica em Versalhes. Em outubro viaja para Roma, e tem
três audiências com o Pe. Geral da Companhia de Jesus, um encontro com
Mons. Montini (futuro Papa Paulo VI), e, aos 18 de outubro, é recebido
em audiência especial por S.S. Pio XII, que lhe outorga um grande
apoio. Finalmente, junto com Manuel Larraín, visita o filósofo Jacques
Maritain. O próprio Pe. Hurtado afirma: "O mês em Roma foi uma
graça do céu, pois vi e ouvi coisas sumamente interessantes que me
animaram muito para seguir integramente na linha começada. Neste
sentido, as palavras de alento do Santo Padre e do Nosso Padre Geral
foram para mim um estímulo imenso".
Volta para a França e permanece duas semanas com o Pe. J. Lebret em
Économie et Humanisme, outra instituição católica dedicada ao estudo
dos problemas sociais e econômicos. Durante estes dias, realizou uma
viagem rápida para estudar a Liga de Camponeses Católicos, os
Sindicatos Cristãos e a Juventude Operária Católica. Com razão pôde
escrever: "acumulo toneladas de experiências
interessantíssimas".
Depois deste nutrido itinerário de congressos e entrevistas, aos 17 de
novembro chega em Paris, para "fechar-me por um tempo em meu
quarto, pois as experiências acumuladas são demasiado numerosas e é
preciso assimilá-las, amadurecê-las, anotá-las". Em dezembro,
escreve: "Aqui estou em Paris, fazendo vida de Casa de Retiro,
fechado num quarto, cheio de livros… há tanto que fazer, tanto que
ler e meditar, pois, esta viagem deu-ma Deus para que me renove e me
prepare nos tremendos problemas que lá temos". Permanece mais de
dois meses quase sem sair de Paris, e só vai uns dias a um Congresso de
moralistas. A sua exposição é acerca da relação entre Igreja e
Estado, e intitula-se: "Com ou sem o poder?".
Desta viagem resgata muitos aspectos; a sua opinião geral do movimento
católico social é certamente positiva, mas também adianta-se em ver
certos riscos. Por exemplo, a respeito do Congresso de moralistas, vê
"um afã excessivo de renovação" e uma tendência "a
esquecer os valores reais da Igreja, a visão tradicional",
tendência que tem como conseqüência deixar a Igreja "sem
dirigentes autenticamente cristãos, mas com homens de mística social,
mas não cristão-social"; mas, ao mesmo tempo, assinala que
"por cima de tudo há muito espírito, muito desejo de servir à
Igreja, e uma abnegação realíssima como demonstra-se nos trabalhos
que empreendem".
De volta ao Chile, estas experiências permitem-lhe amadurecer o seu
projeto das ASICH, pondo como ponto de partida o seu sólido fundamento
em Cristo e em sua Igreja. A tarefa é dura e não isenta de maus
entendidos e críticas injustas. A ASICH nasce para oferecer formação
cristã aos operários, centrada no ensinamento social da Igreja, e com
miras a defender a dignidade do trabalho humano sobre qualquer consigna
ideológica. As críticas repetem-se; todavia, não conseguem desanimar
o Pe. Hurtado. Uma carta que revela a personalidade do Pe. Hurtado, diz:
"Claro que há muitos perigos, e que o terreno é difícil… Quem
não o vê? Mas, será esta uma razão para abandoná-lo ainda mais
tempo?… Que alguma vez vou dar um fora? Certo! Mas, não será mais
dar o fora, se por covardia, pelo desejo do perfeito, do acabado, não
fazer o que se possa?".
|
|