Pregação no matrimônio de José Arellano e Teresa Marín
Meus queridos esposos: Gostaria de tomar como tema, das poucas palavras
que queria dirigir-vos agora, o desejo da felicidade cristã. Todo o
cristianismo não é mais que uma mensagem de felicidade. E se recordais o
sermão da montanha que juntos, sem dúvidas, lestes tantas vezes,
encontrareis nele estas palavras formosíssimas de Cristo Nosso Senhor,
com que o inicia. Bem-aventurados é a palavra que repete. Não se cansa o
Senhor de repetir-nos nesse sermão o que Ele vem trazer para a terra:
Bem-aventurança, paz, felicidade, alegria. Essa é toda a mensagem cristã!
E se olhamos a vida da Igreja, que é a realização da mensagem de Cristo,
não é mais do que a introdução do homem na felicidade divina. O batismo
faz-nos filhos de Deus e introduz-nos na vida divina, porque faz-nos
participar dessa vida de Deus; a Eucaristia, cuja festa celebramos hoje,
não é mais que a participação da alma no Corpo e Sangue de Cristo para
unir-nos mais intimamente com Ele; e todos os sacramentos têm esse
sentido: preparar a alma para a união com Deus, fonte de toda felicidade.
E em que consiste a felicidade, meus queridos esposos? O Senhor Jesus dá-nos
a norma da felicidade cristã: A felicidade cristã consiste em dar-se. E
por isso Jesus diz-nos ‘feliz é quem dá, mais feliz do que quem recebe’
(cf. At 20,35). E se olhamos para Deus, fonte de toda felicidade, Deus é
quem dá. Olhemos a vida íntima da Santíssima Trindade: o Pai, que é
fonte de todo ser e de toda alegria, dá o seu próprio ser ao seu Filho,
gerando-o desde toda a eternidade, e o Pai e o Filho, que se conhecem,
dão-se mutuamente num amor eterno, que é o Espírito Santo. Eis aqui a
fonte de toda felicidade. E esse Deus riquíssimo na sua solidão,
acompanhado na sua solidão, que é Trindade, todavia não se satisfaz com
essa situação mútua das pessoas, e decide criar, e cria o mundo por
amor. E tudo quanto vemos não é mais do que a doação de Deus, nós mesmos
somos uma doação de Deus, e o mundo inteiro é uma doação que Deus nos dá.
E esta lei da felicidade, meus queridos esposos, é a lei da alegria
cristã no matrimônio, e por isso dou-vos a norma conseguinte: dai-vos,
mutuamente, um ao outro. O matrimônio cristão é uma competência em
dar-se.
A felicidade tem uma só norma: Dar-se, entregar-se a si mesmo, e para
esse fim em vossa vida ocorre, o que em toda vida humana ocorre, por
mais bela que seja, por mais nobre e mais generosa, se alguma vez vem
alguma pequena nuvem a turvar o sol do amor, que vos apresseis a ser o
primeiro em dar ao outro o perdão, em sofrer pelo outro, em orar juntos,
na noite, ao cair das luzes do dia, recolhidos numa oração, e os
sofrimentos do dia, ponde-os aos pés de Cristo, especialmente desejando
a felicidade para o ser amado.
Meus queridos esposos, num lar cristão, num lar abençoado pela
felicidade cristã, os filhos são desejados, os filhos são pedidos, os
filhos são esperados e, pelos filhos, desde agora sofre-se, desde agora
acumula-se para eles um tesouro, mais que de bens materiais, um tesouro
de virtudes, um tesouro de graças, um tesouro de preces, para que quando
eles cheguem a este mundo encontrem-se ricos, com a riqueza espiritual
dos seus pais. E os filhos, por muitos que sejam os que Deus queira
dar-vos, estou certo, meus queridos esposos, que não vão esgotar esse
desejo de dar-vos que vós tendes.
E mais além do vosso lar, estão aqueles que em vossa vida de solteiros
tanto amastes, os pobres, os que sofrem, os que padecem; o bem comum, a
pátria. Empresas todas estas que em vossa vida de casados não hão de
cessar, meus queridos esposos, mas que, ao contrário, deveis ser mais
fortes e mais generosos em prolongar para essas obras os vossos esforços.
Não ides a estar sós, agora, para trabalhar, mas estareis acompanhados;
e se a tarefa é difícil, e se a tarefa é ingrata, e em certos momentos
desanimadora, tendes então uma nova força em vosso mútuo amor. Uma nova
força a tereis nesses filhos, que devem vir também para sustentar-vos
nessas empresas, para o bem dos outros, porque ides legar a eles essa
tradição preciosa de uma vida que não se consume egoisticamente nas
paredes do lar, mas que pretende unicamente dar-se como Deus. Dizia-vos
no princípio, Deus se dá, Deus é doação permanente.
Meus queridos esposos, em vossa vida de solteiros há algo que sempre vos
animou, que seja o mesmo que vos anime em vossa vida de casados: Jesus,
o exemplo do dar-se. Lede juntos as páginas do Evangelho, não deixeis
jamais de lê-las. Oxalá que desde a vossa primeira noite de matrimônio,
as leiais juntos. Essas páginas formosas, nas quais encontrareis o
exemplo da vida de Deus, que tanto amou o mundo que nos deu seu Filho
Unigênito (cf. Jo 3,16) e depois, esse Filho Unigênito de Deus na terra,
o que fez senão dar aos homens as suas palavras, dar-lhes os seus
exemplos, dar-lhes a sua vida? Quando não tinha nada mais que dar-lhes,
deu-lhes a sua própria Mãe! E antes de despedir-se de nós, deixou-nos
como lembrança suprema aquilo que hoje em dia celebra a Igreja: a doação
do seu próprio Corpo e do seu próprio Sangue, para que seja seu próprio
Corpo e seu próprio Sangue o alimento espiritual das nossas almas.
E junto a Jesus tendes a Virgem, a doce Mãe Maria, aquela que preside
este altar. O altar diante do qual viestes tantas vezes juntos para
receber o Corpo eucarístico de Jesus. Ela, vossa Mãe, olha-vos desde
este altar bendito, olha-vos desde o céu e deseja-vos toda classe de
bênçãos para o vosso novo lar. E por isso, Teresinha, o rosário que tens
em tuas mãos, que o debulhes cada noite junto com o teu marido, e amanhã
junto com os vossos filhos, e oxalá com os pobres que rodeiam a vossa
casa. E à Mãe do Amor formoso, à doce Virgem Maria, cada noite cinqüenta
vezes digais: «Rogai Mãe, por nós, agora e na hora da nossa morte».
E estou seguro, meus queridos esposos, que estes desejos já começam a
realizar-se, porque essa felicidade cristã que se deseja para vós, estou
certo, que já inunda os vossos corações: Ela rebenta em vossas almas.
Vivemos numa hora do mundo em que os homens parece que perderam a
confiança em si mesmos, a confiança em poder ser felizes. Que eles vejam
em vosso lar que a felicidade é uma realidade, que a dita é dom de Deus
na terra, que a gozam as almas de boa vontade, como sois vós e como
podem sê-lo todos aqueles que põem em Deus a sua felicidade: José, estou
seguro, que desejas dizer à Teresa aquelas palavras daquele poeta
cristão, que vos citava há um momento, dizia à sua esposa: «Vem alma
virgem, à chamada amiga de uma alma de homem que te espera ansioso,
porque pressente que virão contigo o pudor da virgem candorosa e o casto
amor da leal esposa”.