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06. Uma competência em dar-se
 
     
 

Pregação no matrimônio de José Arellano e Teresa Marín

Meus queridos esposos: Gostaria de tomar como tema, das poucas palavras que queria dirigir-vos agora, o desejo da felicidade cristã. Todo o cristianismo não é mais que uma mensagem de felicidade. E se recordais o sermão da montanha que juntos, sem dúvidas, lestes tantas vezes, encontrareis nele estas palavras formosíssimas de Cristo Nosso Senhor, com que o inicia. Bem-aventurados é a palavra que repete. Não se cansa o Senhor de repetir-nos nesse sermão o que Ele vem trazer para a terra: Bem-aventurança, paz, felicidade, alegria. Essa é toda a mensagem cristã! E se olhamos a vida da Igreja, que é a realização da mensagem de Cristo, não é mais do que a introdução do homem na felicidade divina. O batismo faz-nos filhos de Deus e introduz-nos na vida divina, porque faz-nos participar dessa vida de Deus; a Eucaristia, cuja festa celebramos hoje, não é mais que a participação da alma no Corpo e Sangue de Cristo para unir-nos mais intimamente com Ele; e todos os sacramentos têm esse sentido: preparar a alma para a união com Deus, fonte de toda felicidade.

E em que consiste a felicidade, meus queridos esposos? O Senhor Jesus dá-nos a norma da felicidade cristã: A felicidade cristã consiste em dar-se. E por isso Jesus diz-nos ‘feliz é quem dá, mais feliz do que quem recebe’ (cf. At 20,35). E se olhamos para Deus, fonte de toda felicidade, Deus é quem dá. Olhemos a vida íntima da Santíssima Trindade: o Pai, que é fonte de todo ser e de toda alegria, dá o seu próprio ser ao seu Filho, gerando-o desde toda a eternidade, e o Pai e o Filho, que se conhecem, dão-se mutuamente num amor eterno, que é o Espírito Santo. Eis aqui a fonte de toda felicidade. E esse Deus riquíssimo na sua solidão, acompanhado na sua solidão, que é Trindade, todavia não se satisfaz com essa situação mútua das pessoas, e decide criar, e cria o mundo por amor. E tudo quanto vemos não é mais do que a doação de Deus, nós mesmos somos uma doação de Deus, e o mundo inteiro é uma doação que Deus nos dá.

E esta lei da felicidade, meus queridos esposos, é a lei da alegria cristã no matrimônio, e por isso dou-vos a norma conseguinte: dai-vos, mutuamente, um ao outro. O matrimônio cristão é uma competência em dar-se.

A felicidade tem uma só norma: Dar-se, entregar-se a si mesmo, e para esse fim em vossa vida ocorre, o que em toda vida humana ocorre, por mais bela que seja, por mais nobre e mais generosa, se alguma vez vem alguma pequena nuvem a turvar o sol do amor, que vos apresseis a ser o primeiro em dar ao outro o perdão, em sofrer pelo outro, em orar juntos, na noite, ao cair das luzes do dia, recolhidos numa oração, e os sofrimentos do dia, ponde-os aos pés de Cristo, especialmente desejando a felicidade para o ser amado.

Meus queridos esposos, num lar cristão, num lar abençoado pela felicidade cristã, os filhos são desejados, os filhos são pedidos, os filhos são esperados e, pelos filhos, desde agora sofre-se, desde agora acumula-se para eles um tesouro, mais que de bens materiais, um tesouro de virtudes, um tesouro de graças, um tesouro de preces, para que quando eles cheguem a este mundo encontrem-se ricos, com a riqueza espiritual dos seus pais. E os filhos, por muitos que sejam os que Deus queira dar-vos, estou certo, meus queridos esposos, que não vão esgotar esse desejo de dar-vos que vós tendes.

E mais além do vosso lar, estão aqueles que em vossa vida de solteiros tanto amastes, os pobres, os que sofrem, os que padecem; o bem comum, a pátria. Empresas todas estas que em vossa vida de casados não hão de cessar, meus queridos esposos, mas que, ao contrário, deveis ser mais fortes e mais generosos em prolongar para essas obras os vossos esforços. Não ides a estar sós, agora, para trabalhar, mas estareis acompanhados; e se a tarefa é difícil, e se a tarefa é ingrata, e em certos momentos desanimadora, tendes então uma nova força em vosso mútuo amor. Uma nova força a tereis nesses filhos, que devem vir também para sustentar-vos nessas empresas, para o bem dos outros, porque ides legar a eles essa tradição preciosa de uma vida que não se consume egoisticamente nas paredes do lar, mas que pretende unicamente dar-se como Deus. Dizia-vos no princípio, Deus se dá, Deus é doação permanente.

Meus queridos esposos, em vossa vida de solteiros há algo que sempre vos animou, que seja o mesmo que vos anime em vossa vida de casados: Jesus, o exemplo do dar-se. Lede juntos as páginas do Evangelho, não deixeis jamais de lê-las. Oxalá que desde a vossa primeira noite de matrimônio, as leiais juntos. Essas páginas formosas, nas quais encontrareis o exemplo da vida de Deus, que tanto amou o mundo que nos deu seu Filho Unigênito (cf. Jo 3,16) e depois, esse Filho Unigênito de Deus na terra, o que fez senão dar aos homens as suas palavras, dar-lhes os seus exemplos, dar-lhes a sua vida? Quando não tinha nada mais que dar-lhes, deu-lhes a sua própria Mãe! E antes de despedir-se de nós, deixou-nos como lembrança suprema aquilo que hoje em dia celebra a Igreja: a doação do seu próprio Corpo e do seu próprio Sangue, para que seja seu próprio Corpo e seu próprio Sangue o alimento espiritual das nossas almas.

E junto a Jesus tendes a Virgem, a doce Mãe Maria, aquela que preside este altar. O altar diante do qual viestes tantas vezes juntos para receber o Corpo eucarístico de Jesus. Ela, vossa Mãe, olha-vos desde este altar bendito, olha-vos desde o céu e deseja-vos toda classe de bênçãos para o vosso novo lar. E por isso, Teresinha, o rosário que tens em tuas mãos, que o debulhes cada noite junto com o teu marido, e amanhã junto com os vossos filhos, e oxalá com os pobres que rodeiam a vossa casa. E à Mãe do Amor formoso, à doce Virgem Maria, cada noite cinqüenta vezes digais: «Rogai Mãe, por nós, agora e na hora da nossa morte».

E estou seguro, meus queridos esposos, que estes desejos já começam a realizar-se, porque essa felicidade cristã que se deseja para vós, estou certo, que já inunda os vossos corações: Ela rebenta em vossas almas.

Vivemos numa hora do mundo em que os homens parece que perderam a confiança em si mesmos, a confiança em poder ser felizes. Que eles vejam em vosso lar que a felicidade é uma realidade, que a dita é dom de Deus na terra, que a gozam as almas de boa vontade, como sois vós e como podem sê-lo todos aqueles que põem em Deus a sua felicidade: José, estou seguro, que desejas dizer à Teresa aquelas palavras daquele poeta cristão, que vos citava há um momento, dizia à sua esposa: «Vem alma virgem, à chamada amiga de uma alma de homem que te espera ansioso, porque pressente que virão contigo o pudor da virgem candorosa e o casto amor da leal esposa”.

 
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