Textos
20. A chamada de Cristo
 
     
 

Meditação do Reino, do retiro da Semana Santa para jovens de 1946

Cristo veio a este mundo não para fazer uma obra sozinho, mas conosco, com todos nós, para ser a cabeça de um grande corpo cujas células vivas, livres, ativas, somos nós. Todos somos chamados a estar incorporados n’Ele, esse é o grau básico da vida cristã… Mas para outros tem chamados mais altos: a entregar-se a Ele; a ser só para Ele; a fá-lo norma da sua inteligência, a considerá-lo, em cada uma das suas ações, a segui-lo nas suas empresas, mais ainda, a fazer da sua vida a empresa de Cristo!! Para o marinheiro, a sua vida é o mar; para o soldado, o exército; para a enfermeira, o hospital; para o agricultor, o campo; para a alma generosa, a sua vida é a empresa de Cristo!!

Isto é o chamamento de Cristo: Quererias consagrar-me a tua vida? Não é problema de pecado! É problema de consagração! Para que? À santidade pessoal e ao apostolado. Santidade pessoal que deve ir calcada pela santidade de Cristo.

Se Ele te chamasse, o que farias?… Gostaria que o pensasses profundamente, porque isto é o essencial dos retiros espirituais. Os retiros são uma chamada profunda à generosidade. Não se movem por temor, não se trata de assustar! Recordam os mandamentos, porque não podem senão recordá-los. Os mandamentos são a base, o alicerce para toda construção, porque são a vontade de Deus obrigatória… Mas, não são mais do que os alicerces, e não se vive nos alicerces, não há formosura nos alicerces… Os retiros são para almas que queiram subir, e quanto mais acima, melhor; são para aqueles que entenderam o que significa Amar, e que o cristianismo é amor, que o mandamento grande por excelência é o amor.

A prova da fé é o amor, amor heróico, e o heroísmo não é obrigatório. O sacerdócio, as missões, as obras de caridade não são matéria de obrigações, de pecado, são absolutamente necessárias para a Igreja e são obra da generosidade. O dia que não haja sacerdotes, não haverá sacramentos, e o sacerdócio não é obrigatório; o dia em que não haja missionários, não avançará a fé, e as missões não são obrigatórias; o dia em que não haja quem cuide dos leprosos e dos pobres não haverá o testemunho distintivo de Cristo, e essas obras não são obrigatórias… O dia em que não haja santos, não haverá Igreja e a santidade não é obrigatória. Que grande é esta idéia! A Igreja não vive do cumprimento do dever, mas da generosidade dos seus fiéis!

Se Ele te chamasse, que lhe dirias? Em que disposição estás? Pede, roga de estar na melhor das hipóteses!!! Santo Inácio pede a quem entre nos Exercícios: Grande ânimo e liberalidade para com Deus Nosso Senhor! Querer ser seduzido e entregar-se inteiros!!

Senhor, se no nosso atribulado século XX, que vem saindo desta horrenda carnificina: campos de concentração, deportações, bombardeamentos, que trabalhou afanosamente para matar com armas mil vezes piores, que se despedaçam por possuir mais, por mais negócios, mais confortos, mais honras, menos dor; se neste mundo do século XX, uma geração compreendesse a sua missão e quisesse dar testemunho do Cristo em que crê, não só com gritos que nada significam de Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera… Onde?, senão na oferenda humilde, silenciosa das suas vidas, para fá-lo reinar pelos caminhos em que Cristo quer reinar: na sua pobreza, mansidão, humilhação, nas suas dores, na sua oração, na sua caridade humilde e abnegada!!

Se Cristo encontrasse essa geração! Se Cristo encontrasse um… quererias ser tu?, o mais humilde. O mais inútil aos olhos do mundo, pode ser o mais útil aos olhos de Deus… Eu, Senhor, não valo nada… mas confuso, com temor e tremor, eu te ofereço o meu próprio coração. O Senhor entrou em Jerusalém no dia do seu triunfo sobre um asno, e segue fiel a essa prática, entra nas almas dos asnos de boa vontade, pobres, mansos, humildes. Queres ser o asno de Cristo? Cristo não me quer enganar, indica-me precisamente a o que fazer… É difícil, bem difícil. É preciso lutar contra as paixões próprias, que apetecem o contrário do seu programa. Não estarão mortas de uma vez para sempre, mas que terão que ir morrendo cada dia!

É preciso lutar contra o ambiente: amigos, família, mundo atrações… tudo parecerá levantar-se escandalizado diante de quem pretenda, com tal exemplo, por mais modestamente que se dê, assinalar o seu erro. Se me amam quererão dar-me o que chamam bens!, e livrar-me das exagerações ridículas, passadas de moda, «que fazem mais mal do que bem…». Para que estas exagerações? Por que não fazer como todos? Lutar contra os escândalos… lutar contra os desalentos da empresa, o cansaço da idade, a secura do espírito, o tédio, a fadiga, a monotonia… Sim, é preciso lutar, mas ali estou Eu. Tende confiança em Mim, Eu venci o mundo. O meu jugo é suave e o meu fardo é leve… Vinde a mim os que estais cansados sob o peso do vosso fardo e eu vos darei descanso… Se alguém tem sede, venha a mim e beba. De seu seio jorrarão rios de água viva!! (Jo 16,33; Mt 11,30.28; Jo 7,37-38).

Preciso de ti… Não te obrigo, mas necessito de ti para realizar os meus planos de amor. Se tu não vens, uma obra ficará sem ser feita, que tu, só tu podes realizar. Ninguém pode tomar essa obra, porque cada um tem a sua parte de bem que realizar. Olha o mundo; os campos como amarelam, quanta fome, quanta sede no mundo. Olha como procuram a mim, inclusive quando me perseguem… Há uma fome ardente, atormentadora de justiça, de honradez, de respeito pela pessoa; uma vontade resoluta a fazer saltar o mundo desde que terminem as explorações vergonhosas; há gentes, entre os que se chamam meus inimigos, que praticam por ódio o que ensino por amor… Há uma fome em muitos de Religião, de espírito, de confiança de sentido da vida.

Difícil? Sim! O mundo não o compreenderá… burlar-se-á… Dirá: exagerações! Que ficou louco! De Jesus se disse que estava louco, vestiram-no de louco, acusaram-no de endemoniado… e finalmente crucificaram-no. E se Cristo viesse hoje à terra, horror me dá pensá-lo, não seria crucificado mas seria fuzilado. Se viesse ao Chile… levantar-se-ia um sedição contra Ele. De quem? O que se diria contra ele na imprensa, nas Cátedras? Quem falaria? Deus queira que nós não formássemos parte do coro dos seus acusadores, nem dos que o fuzilaram. Difícil? Sim! Mas aqui, só aqui, reside a vida.

Na grande obra de Cristo todos temos um lugar; distinto para cada um, mas um lugar no plano da santidade. Na corrente da graça que Deus destina à bondade. E estou chamado a ser um elo! Posso sê-lo, posso rechaçar, o que farei? A resposta: propor-me este programa a fundo e responder com seriedade!

A resposta dos jovens

Muitos não terão o valor de propô-lo a si mesmo. Será superior às suas forças, mas, se pensassem nas forças de Cristo? Se pensassem que com Cristo, eles também poderiam ser santos. Que não se refugiem na covardia do puro dever!

Outros darão a esmola de algo. É algo!! Pior seria nada. Mas não é isso o que Cristo pede! Não há que oferecer outra coisa, insistindo que é boa, quando Cristo pede outra melhor: a vontade de Deus única e só.

Os tesouros são os generosos, os que se entregam e fingem, e para estarem seguros de fazerem a vontade do Senhor, «atuando contra a sua sensibilidade» abraçam o mais difícil em espírito, pedem-no, suplicam-no que lhes seja concedido… e só deixarão aquelas doações se o Senhor mostra-lhes o seu caminho em terreno mais suave. Mas, da própria parte, isso escolhem!

 
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