Carta de outubro de 1933, depois de ter sido ordenado sacerdote
Já sou sacerdote do Senhor! Bem compreenderá a minha felicidade imensa e
com toda sinceridade posso dizer-lhe que sou plenamente feliz. Deus
concedeu-me a grande graça de viver contente em todas as casas por onde
passei e com todos os companheiros que tive. E considero isto uma grande
graça. Mas agora, ao receber para sempre a ordenação sacerdotal, a minha
alegria chega ao seu cúmulo. Agora já não desejo mais que exercer o meu
ministério sacerdotal com a maior plenitude possível de vida interior e
de atividade exterior compatível com a primeira.
O segredo desta adaptação e do êxito, está na devoção ao Sagrado Coração
de Jesus, isto é, o Amor transbordante de Nosso Senhor, o Amor que Jesus,
como Deus e como homem, tem por nós e que resplandece em toda a sua
vida. Se pudéssemos realizar na vida esta idéia: o que pensa disto o
Coração de Jesus, o que sente de tal coisa…? E procurássemos pensar e
sentir como Ele, como engrandecer-se-ia o nosso coração e
transformar-se-ia a nossa vida! Pequenezes e misérias que cometemos e
que vemos que se cometem ao nosso lado desapareceriam, e nas nossas
comunidades reinaria uma felicidade sobrenatural e também natural, maior
compreensão, um respeito maior de cada um dos nossos irmãos, pois até o
último merece que nos perturbemos por ele, e que o tenhamos na devida
conta. Esta é uma idéia que me vem com freqüência e que a penso muito,
porque desejaria realizá-la cada vez mais.
Eu creio que a devoção ao Sagrado Coração devemos vivê-la em base a uma
caridade sem limites, que faça com que os nossos irmãos sintam-se bem em
companhia dos seus irmãos e que os leigos sintam-se movidos não pelas
nossas palavras, que na maior parte das vezes deixá-los-á frios, mas
pela nossa vida de caridade humano-divina para com eles. Mas, esta
caridade dever ser também humana, se quer ser divina. Neste ambiente de
ceticismo, que reina agora, eu não creio que exista outro meios,
humanamente falando, de pregar Jesus Cristo entre os que não crêem senão
este: o do exemplo de uma caridade como a de Cristo.
Adeus, meu querido irmão Sérgio. Não me esqueça diante do Senhor.
Alberto Hurtado C. s.j.