Textos
27. Adoração e serviço
 
     
 

Carta a um amigo, de 24 de junho de 1948

Morto de vergonha estou pelo mal que comportei contigo, mas tu conheces de sobra a minha vida, e sabes as mil e uma atividades em que me vejo envolvido e que me deixam impossibilitado para poder escrever-te uma longa e noticiosa carta.

Alegro-me, na alma, pelas notícias que me dás da tua vida, dos teus trabalhos, e das tuas atividades; sobretudo da contemplação à que Deus te vai levando.

Cada dia estou mais persuadido que o caminho iniciado é o único sólido para uma influência cristã. O esquecimento de Deus, tão característico do nosso século, creio que é o erro mais grave, muito mais grave ainda do que o esquecimento do social.

O nosso século é eminentemente «o século do homem». Buscando as virtudes ativas, perdemos o sentido do sacrifício e da resignação; todavia, este tem um valor eterno que nada poderá substituir.

Oxalá, pois, meu querido amigo, que te empapes de calma, de adoração. Esta última palavrinha é a que mais quero recalcar-te: adoração. Tratar de palpar a imensa grandeza de Deus, algo do que se vê no Antigo Testamento e que uma explicação excessivamente adocicada faz-nos esquecer às vezes. É absolutamente necessário fazer amizade com Cristo, no sentido de uma fraternidade com Ele, mas que nada nos faça esquecer a distância infinita que nos separa; que se Ele nos chama seus filhos não é porque tenhamos direito, mas por um gesto da sua infinita bondade.

Recomendo-te muito que saboreies orações da Santa Missa, a Seqüência de Pentecostes e outras deste estilo. Oxalá chegues a conaturalizar-te com a vida litúrgica no seu sentido mais pleno, com o canto dos salmos, com a adoração eucarística. O que mais te desejo – to repito uma e mil vezes – é que voltes com muito espírito de adoração, com muita paz interior, com uma grande disposição a ser um instrumento de Cristo. Nisto está a santidade. Nenhuma definição tão formosa de oração encontrei como a do Pe. Charles: «Orar é conformar os nossos quereres com o querer divino, tal como Ele se manifesta nas suas obras».

Todos estas minhas atividades aumentam-se agora com o projeto de habitações de emergência que começa a caminhar, como linha anexa ao Lar de Cristo. O bom espírito dos colaboradores é magnífico e creio que esta idéia será realidade formosíssima no final do ano. Pensamos construir povoados de emergência para a gente mais pobre. Primeiro serão a eles arrendados e logo começarão a amortizar as cotas até cobrir o valor de uma das casas.

Por outro lado, e para os menos pobres, pensamos construir casinhas que desde o primeiro momento serão dos seus possuidores. Eles contribuirão com pequenas cotas e o resto será amortizado segundo as suas possibilidades.

Deus nos dê homens de vida interior que os encarem com serenidade e com verdadeira justiça. Saúda-te com todo carinho, teu afetuosíssimo amigo,

Alberto Hurtado C. s.j.

 
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