Textos
29. Regras para sentir com a Igreja
 
     
 

Comentário a um escrito de Santo Inácio de Loyola

Regras para estar sempre com a Igreja, no espírito da Igreja militante. Não podemos colaborar se não temos o espírito da Igreja militante. A nossa primeira idéia é buscar inimigos para combater com eles… é bastante ordinária…

Santo Inácio diz: Louvar as longas orações, os jejuns, as ordens religiosas, a teologia escolástica… Louvar, louvar. Não se trata de vendar-se os olhos e dizer amém a todos!! Porém, o pressuposto profundo está um pouco escondido. Há um pensamento esplêndido, às vezes esquecido: tenho que louvar do profundo do meu coração o que legitimamente não faço. Não medir o Espírito divino pelos meus prejuízos!!

A mente da Igreja é a largura de espírito. Se legitimamente eles o fazem, eu legitimamente não o faço. A idéia central é que, na Igreja, para manifestar a sua riqueza divina, há muitos modos: «Na casa de meu Pai há muitas moradas» (Jo 14,2). A vida da Igreja é uma sinfonia. Cada instrumento tem o dever de louvar os outros, mas não de imitá-los. O tambor não imita a flauta, mas não a censura… É um pouco ridículo, mas tem o seu papel. E os outros instrumentos, podem zombar-se do bombo? Não, porque não são bombo. É como o arco-íris… O vermelho, pode censurar o amarelo? Cada um tem o seu papel. Que bem quadra isto dentro do Espírito do Corpo Místico.

Logo, não encerrar a Igreja dentro do meu espírito, do meu espírito de raça, da minha classe, da minha nação. A Igreja é ampla. Os hereges, sob o pretexto de liberdade estreitaram a mente humana. Nós com nossos prejuízos burgueses, teríamos acabado com as glórias da Igreja.

No século IV, disseram alguns: «Queremos servir a Deus do nosso modo. Vamos construir uma coluna e encima da coluna uma plataforma pequena… bastante alta para ficar fora do alcance das mãos, e não tanto que não possamos falar-lhes… A caridade dos fiéis nos dará alimento, oraremos!». Nós, o que teríamos feito? Teríamos dito: «Estes são doidos… Por que não fazem como todos?». Mas o homem não é nenhum louco. A Igreja não lançou nenhuma maldição, deu-lhes uma grande bênção! Vocês podem fá-lo, mas não obriguem os outros. Vocês na sua coluna, mas o bispo pode ir sentar-se no seu trono e os fiéis dormirem na sua cama. De todo o mundo Romano vinham para vê-los, ajustavam os vícios, pregavam. São Simão Estilita, e com ele outros. Vou louvar os monges estilitas, mas não vou viver numa coluna.

Outro grupo raro declara: «Nós vamos ao deserto, aos ângulos mais longínquos para toda a vida. Vamos lutar contra o diabo, a jejuar e a orar… a viver numa rocha». E nós? Com o nosso bom sentido burguês barato, diríamos: «Fiquem na cidade. Façam como todo mundo. Abram um armazém; lutem com o diabo na cidade». Mas a Igreja tem para eles uma imensa bênção. Não lutem demasiado entre si! E não obriguem aos outros a ir para o deserto; o que vocês legitimamente fazem, outros não o fazem!! Nós hoje, despedaçados pelo louco ritmo da vida moderna, recordamos os Anacoretas com um pouco de saudade.

Chega o tempo das Cruzadas. A grande ameaça contra o Islão. Chegam uns religiosos bem curiosos. Para nós, o que é um religioso? Manso, com as mãos nas mangas, modesto, ouve confissões de beatas, com barrete? Estes não têm barrete, mas casco, e têm espada no lugar do Rosário… Religiosos guerreiros. Faziam os três votos de religiosos para combaterem melhor. Faziam um quarto voto: o dos templários, voto solene: «não retroceder a ponta da sua lança, quanto sós tinham que enfrentar três inimigos». Era o quarto voto. A Igreja aprovou-o. Logo, todos têm que combater e ser mata-mouros? Era o quarto voto. O que eles legitimamente fazem; nós não.

Vêm outros, tímidos, humildes, mendigos:

– Um pouco de ouro e de prata, mas ouro é melhor…

– O que vão fazer com o ouro dos cristãos?

– Levá-los aos Mouros!

– Vão enriquecer os Mouros? O tesouro da cristandade que se vai?

– Na cristandade não há melhor tesouro que a liberdade dos cristãos.

Os religiosos da Mercê, um voto: ficar com os reféns para conseguir a liberdade dos fiéis! A Igreja abençoou os militares e a Mercê.

O que teríamos feito nós com São Francisco de Assis? Teríamo-lo preso como louco! Não é de louco desnudar-se totalmente no armazém do seu pai para provar que nada é necessário? Não era de louco cortar os cabelos de Santa Clara sem a permissão de ninguém? O que teríamos feito nós? No armazém, o bispo jogou-lhe o seu manto, símbolo da Igreja que o aceita.

Vêm os Cartuxos, que não falam até a morte. Se o superior manda-o pregar, pode dizer: Não, é contra a Regra! «Absurdo –diríamos–, depois de 7 anos… a pregar!». A Igreja manteve a liberdade dos Cartuxos: querem manter-se em silêncio, podem fá-lo! E vêm os Frades Pregadores, os Dominicanos: e a Igreja dá a sua bênção aos pregadores.

São Francisco de Assis: uma idéia: construir um templo com quatro paredes, sem janelas, um pilar, um teto, um altar, duas velas e um crucifixo. Ah não! –diríamos–, isso é um galpão… Vamos pendurar uns quadros… vamos pôr bancos e almofadas… Nada!, diz São Francisco. Grande bênção à sua Igreja e fabulosas indulgências. É a lembrança do Presépio de Belém.

Nos primeiros tempos dos Jesuítas, estes constróem duas igrejas: o Gesù e Santo Inácio. O Gesù, com colunas torneadas, ouro e lazuritas… tardaram 20 anos pintando a abóbada: nuvens, santos e bem-aventurados. E Santo Inácio, com anjos bochechudos e barrigudos… O altar até o teto, com Moisés e Abraão bem barbudos. Nós diríamos: «isso é demasiado, falta de gosto, de moderação». E a Igreja abençoou o Gesù e Santo Inácio. Não é o presépio, é a glória tumultuosa da Ressurreição.

Na Igreja pode-se rezar de todos os modos: oração vocal, meditação, contemplação, até com os pés (isto é, em peregrinação). Os hereges, ao contrário: fora lâmpada, fora imagens, fora medalhas… Todos os desastres da Igreja vêm desta estreiteza de espírito! O clero secular contra o regular, e ordem contra ordem! Para pensar de acordo com a Igreja é preciso ter o critério do Espírito Santo que é amplo.

No Congo, podemos pintar Anjos negros? Claro! E Nossa Senhora negra e Jesus negro? Sim! Este Jesus chinês… que admirável! Nosso Senhor, nos limites do seu corpo mortal, não podia manifestar todas a sua riqueza divina. Para o Congo, um padre comprou quadros impressos na França. Mostra o inferno, e os negros estão entusiasmados: não havia nenhum negro, só brancos! Nenhum negro no inferno!

Este é um pensamento genial de Santo Inácio, exposto simplesmente: louvar, louvar, louvar. Louvemos tudo o que se faz na Igreja sob a bênção do Espírito Santo. Quando a Igreja mantém uma liberdade, louvemo-la!

 
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