Carta desde Paris a uma colaboradora, de 19 de dezembro de 1947
Graças a Deus que termina um ano mais de vida bem empregada, pode a
senhora dizer ao Senhor com toda sinceridade e humildade. Foi uma graça
dele chamá-la a seu serviço, como chamou-a para a vida, mas não seria
honrado se não reconhecesse esta graça. Ao olhar para atrás o caminho
percorrido, não só insista nas deficiências e imperfeições, mas também
no que Ele permitiu-lhe fazer, e no motivo para o qual consagrou a sua
vida: buscá-lo nos seus próximos, servi-lo e amá-lo nos outros começando
pela sua filhinha, a lembrança sempre querida do seu esposo, a sua
família, e logo os seus pobres, aqueles nos quais a fé no-lo mostra
sempre presente.
Quanto mais penso nesta pobre Europa depois da guerra, amargurada,
empobrecida, desalentada para o trabalho, pelo menos em alguns países,
mais claramente vejo a nossa missão de católicos: dar testemunho de
Cristo neste mundo triste, testemunho da nossa alegria que se funda na
nossa fé nele, na bondade do Pai dos céus; testemunho de uma
inquebrantável esperança e de uma profunda caridade. Isto e nada mais:
mas é bastante para salvar o mundo. Estou lendo uma formosa Carta
pastoral do Cardeal de Paris: Auge ou caída da Igreja, e a sua lição,
repetida até o cansaço, é que o católico tem a missão de «encarnar-se,
comprometer-se no temporal para dar testemunho de Cristo». A gente ouve
estas palavras até o cansaço: são o programa para os tempos atuais.
Felizmente, a obra em que a senhora está comprometida, a isso tende.
Digo-lhe isto para convidá-la a olhar também desde um ponto de vista não
só imediatamente humanitário, mas sob o ponto de vista do sentir íntimo
da Igreja, esta obra que responde tanto ao que o mundo necessita. Por
isso, apesar das dificuldades, cansaços, repugnâncias, pequenez própria,
adiante, com a graça de Deus!
Parece-me muito bem o que estão fazendo para tornar agradável o Lar:
quanto mais atraente, melhor. Oxalá que tudo isto leve os operários a um
sentimento cada vez mais profundo do respeito que se devem a si mesmos,
ao ver o respeito com o qual são tratados.
Saudações à sua família.
Alberto Hurtado C. s.s.