Conferência para alunos e professores da Universidade Católica em 1940
Toda a nossa santificação consiste em conhecer Cristo e imitar Cristo.
Todo o evangelho e todos os santos estão cheios deste ideal, que é o
ideal cristão por excelência. Viver em Cristo; transformar-se em Cristo…
São Paulo: «Pois não quis saber outra coisa entre vós a não ser Jesus
Cristo, e Jesus Cristo Crucificado» (1Cor 2,2)… «Eu vivo, mas já não sou
eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim» (Gl 2,20)… A tarefa de todos
os santos é realizar na medida das suas forças, segundo a doação da
graça, diferente em cada um, o ideal paulino de viver a graça de Cristo.
Imitar Cristo, meditar a sua vida, conhecer os seus exemplos… O mais
popular livro da Igreja, depois do Evangelho, é o da «Imitação de
Cristo», mas, de quantas diferentes maneiras compreendeu-se a imitação
de Cristo!
I. Maneiras erradas de imitar o Cristo
1. Para uns, a imitação de Cristo reduz-se a um estudo histórico de
Jesus. Vão buscar o Cristo histórico e ficam nele. Estudam-no. Lêem o
Evangelho, investigam a cronologia, informam-se dos costumes do povo
judeu… E seu estudo, mais bem científico que espiritual, é frio e
inerte. A imitação de Cristo para eles reduzia-se a uma cópia literal da
vida de Cristo. Mas não é isto. Não: «O espírito vivifica; a letra mata»
(2Cor 3,6).
2. Para outros, a imitação de Cristo é mais bem um assunto especulativo.
Vêem em Jesus como o grande legislador; quem soluciona todos os
problemas humanos, o sociólogo por excelência; o artista que se compraz
na natureza, que se recreia com os pequeninos… Para alguns é um artista,
um filósofo, um reformador, um sociólogo, e eles o contemplam, o admiram,
mas não mudam a sua vida diante dele. Cristo permanece só na sua
inteligência e na sua sensibilidade, mas não transcendeu a sua mesma
vida.
3. Outro grupo de pessoas crêem de imitar Cristo preocupando-se, no
extremo oposto, unicamente da observância dos seus mandamentos, sendo
fiéis observadores das leis divinas e eclesiásticas. Escrupulosos na
prática dos jejuns e abstinências. Contemplam a vida de Cristo como um
prolongado dever, e nossa vida como um dever que prolonga o de Cristo.
Às leis dadas por Cristo eles agregam outras, para completar os
silêncios, de modo que toda a vida é um caminho dever, um regulamento de
perfeição, desconhecedor em absoluto da liberdade de espírito.
O foco da sua atenção não é Cristo, mas o pecado. O sacramento essencial
na Igreja não é a Eucaristia, nem o batismo, mas a confissão. A única
preocupação é fugir do pecado. E imitar Cristo para eles é fugir dos
maus pensamentos, evitar todo perigo, limitar a liberdade de todo mundo
e suspeitar más intenções em qualquer acontecimento da vida. Não; não é
esta a imitação de Cristo que propomos. Esta poderia ser a atitude dos
fariseus, não a de Cristo.
4. Para outros, a imitação de Cristo é um grande ativismo apostólico,
uma multiplicação de esforços de orientação de apostolado, um mover-se
continuamente em criar obras e mais obras, em multiplicar reuniões e
associações. Alguns situam o triunfo do catolicismo unicamente em
atitudes políticas. Para outros, o essencial é uma grande procissão de
archotes, um encontro monstruoso, a fundação de um jornal… E não digo
que isto é mal, que isto não se deve fazer. Tudo é necessário, mas não é
isto o essencial do catolicismo.
II. Verdadeira solução
A nossa religião não consiste, como em primeiro elemento, numa
reconstrução do Cristo histórico; nem em uma pura metafísica ou
sociologia ou política; nem numa só luta fria e estéril contra o pecado;
nem primordialmente na atitude de conquista. A nossa imitação de Cristo
não consiste tampouco em fazer o que Cristo fez, a nossa civilização e
condições de vida são tão diferentes!
A nossa imitação de Cristo consiste em viver a vida de Cristo, em ter
essa atitude interior e exterior que em tudo se conforma à de Cristo, em
fazer o que Cristo faria se estivesse no meu lugar.
O primeiro necessário para imitar Cristo é assimilar-se a Ele pela graça,
que é a participação da vida divina. E daqui, antes de tudo, aprecia o
batismo, que introduz, e a Eucaristia que alimenta esta vida e que dá
Cristo, e se a perde, a penitência para recuperar esta vida…
E logo que possua essa vida, procura atuá-la continuamente em todas as
circunstâncias da sua vida pela prática de todas as virtudes que Cristo
praticou, em particular pela caridade, a virtude mais amada por Cristo.
A encarnação histórica necessariamente restringiu Cristo e a sua vida
divino-humana a um quadro limitado pelo tempo e pelo espaço. A
encarnação mística, que é o corpo de Cristo, a Igreja, tira essa
restrição e amplia-a a todos os tempos e espaços onde há um batizado. A
vida divina aparece em todo o mundo. O Cristo histórico foi judeu e
viveu na Palestina, no tempo do Império Romano. O Cristo místico é
chileno do século XX, alemão, francês e africano… É professor e
comerciante, é engenheiro, advogado ou operário, preso e monarca… É todo
cristão que vive na graça de Deus e que aspira a integrar a sua vida nas
normas da vida de Cristo nas suas secretas aspirações. E que aspira
sempre a isto: a fazer o que faz, como Cristo o faria no seu lugar. A
ensinar a engenharia, como Cristo a ensinaria, o direito…, a fazer uma
operação com a delicadeza de Cristo…, a tratar os seus alunos com a
força suave, amorosa e respeitosa de Cristo, a interessar-se por eles
como Cristo se interessaria se estivem no seu lugar. A viajar como
viajaria Cristo, a orar como oraria Cristo, a comportar-se na política,
na economia, na sua vida de lar como comportar-se-ia Cristo.
Isto supõe um conhecimento dos evangelhos e da tradição da Igreja, uma
luta contra o pecado, traz consigo uma metafísica, uma estética, uma
sociologia, um espírito ardente de conquista… Mas não se compendia neles
o primordial. Se humanamente fracassa, se o êxito não coroa o seu
apostolado, não por isso se impacienta. A única derrota consiste em
deixar de ser Cristo pela apostasia ou pelo pecado.
Este é o catolicismo de um Francisco de Assis, Inácio, Xavier, e de
tantos jovens e não jovens que vivem a sua vida cotidiana de casados, de
professores, de solteiros, de estudantes, de religiosos, que participam
no esporte e na política como esse critério de ser Cristo. Estes são os
faróis que convertem as almas, e que salvam as nações.