Meditação de retiro sobre a generosidade apostólica
I. O Apóstolo já não se pertence
«Já não pertenceis a vós mesmos» (cf. 1Cor 6,19-20). O apóstolo já não
se pertence mais. Vendeu-se, entregou-se ao seu Mestre. Para ele vive,
para ele trabalha, por ele sofre. O ponto de vista do Mestre vem a ser o
importante. As minhas preocupações, os meus interesses deixam lugar aos
interesses do Mestre.
Que trabalho escolher? Não o que o gosto, o capricho, a utilidade ou a
comodidade indiquem-me, mas aquele no qual possa servir melhor. O
serviço mais urgente, o mais útil, o mais considerável, o mais
universal. O do Mestre!
Com que atitude? Trabalha-se tanto, se gosta como se desgosta, a mim e
aos outros. É o serviço de Vossa Majestade. Deve-se prosseguir, estender-se,
abandonar-se, mas não por ambição humana, necessidade de ação, ou
conquista de influência, mas porque é a obra do Mestre. Fazer o que Ele
faria.
A esta obra subordina-se tudo, inclusive a saúde, a alegria espiritual,
o repouso e o triunfo. Segundo o de São Paulo: «Sinto-me num dilema: o
meu desejo é partir e ir estar com Cristo, pois isso me é muito melhor,
mas o permanecer na carne é mais necessário por vossa causa. Convencido
disso sei que ficarei e continuarei com todos vós» (Fl 1,23-25).
É um trabalho amoroso, não de escravo. Não se queixa, mas que se alegra
em dar-se, como a mãe pelo seu filho enfermo. É um dom total à obra do
Mestre que se abraça com carinho, de maneira que chega a ser mais
sacrifício não se sacrificar: Ama a sua dor.
II. A Paz apostólica
O mundo procura dar-nos a paz pela ausência de todos os males sensíveis
e a reunião de todos os prazeres. A paz que Jesus promete aos seus
discípulos é distinta. Funda-se não na ausência de todo sofrimento e de
toda preocupação, mas na ausência de toda divisão interior profunda;
fundamenta-se não na ausência de todo sofrimento e de toda preocupação,
mas na ausência de toda divisão interior profunda; fundamenta-se na
unidade da nossa atitude para com Deus, para conosco e para com os
outros.
Esta é a paz no trabalho-sem-descanso: Meu pai trabalha sem descanso. Eu
também trabalharei (cf. Jo 5,17). O verdadeiro trabalho de Deus, que
consiste em dar a vida e conservá-la, atrair cada ser para o seu próprio
bem, não cessa, nem pode cessar. Assim, os que verdadeiramente estão
associados ao trabalho divino não podem descansar jamais, porque nada é
servil neste trabalho. Um apóstolo trabalha quando dorme, quando
descansa, quando se distrai… Tudo isso é santo, é apostolado, é
colaboração para o plano divino.
A paz cristã está fundada sobre esta unificação de todas as nossas
potências de trabalho e de resistência, de todos os nossos desejos e
ambições… Aquele que em princípio está assim unificado e que pouco a
pouco leva à prática esta unificação, este tem a paz.
III. O zelo de Paulo
O apóstolo é um mártir ou permanece estéril. Procurar ao pregar o zelo,
a abnegação, o heroísmo, que sejam virtudes cristãs que nasçam do
exemplo e doutrina de Cristo. O zelo das almas é uma paixão ardente.
Fundamenta-se no amor; é o seu aspecto conquistador e agressivo, e
quando toca-se o ser amado, toca-se a ele mesmo. Assim Paulo: «fui
crucificado junto com Cristo» (Gl 2,19), fica furioso quando toca-se a
fé dos seus Gálatas… porque ele está identificado com Cristo: tocar essa
fé é tocar ele mesmo. «Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é
Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé
no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gl
2,20). Não se toca Cristo, senão passando por Paulo.