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38. «Já não pertenceis a vós mesmos»
 
     
 

Meditação de retiro sobre a generosidade apostólica

I. O Apóstolo já não se pertence

«Já não pertenceis a vós mesmos» (cf. 1Cor 6,19-20). O apóstolo já não se pertence mais. Vendeu-se, entregou-se ao seu Mestre. Para ele vive, para ele trabalha, por ele sofre. O ponto de vista do Mestre vem a ser o importante. As minhas preocupações, os meus interesses deixam lugar aos interesses do Mestre.

Que trabalho escolher? Não o que o gosto, o capricho, a utilidade ou a comodidade indiquem-me, mas aquele no qual possa servir melhor. O serviço mais urgente, o mais útil, o mais considerável, o mais universal. O do Mestre!

Com que atitude? Trabalha-se tanto, se gosta como se desgosta, a mim e aos outros. É o serviço de Vossa Majestade. Deve-se prosseguir, estender-se, abandonar-se, mas não por ambição humana, necessidade de ação, ou conquista de influência, mas porque é a obra do Mestre. Fazer o que Ele faria.

A esta obra subordina-se tudo, inclusive a saúde, a alegria espiritual, o repouso e o triunfo. Segundo o de São Paulo: «Sinto-me num dilema: o meu desejo é partir e ir estar com Cristo, pois isso me é muito melhor, mas o permanecer na carne é mais necessário por vossa causa. Convencido disso sei que ficarei e continuarei com todos vós» (Fl 1,23-25).

É um trabalho amoroso, não de escravo. Não se queixa, mas que se alegra em dar-se, como a mãe pelo seu filho enfermo. É um dom total à obra do Mestre que se abraça com carinho, de maneira que chega a ser mais sacrifício não se sacrificar: Ama a sua dor.

II. A Paz apostólica

O mundo procura dar-nos a paz pela ausência de todos os males sensíveis e a reunião de todos os prazeres. A paz que Jesus promete aos seus discípulos é distinta. Funda-se não na ausência de todo sofrimento e de toda preocupação, mas na ausência de toda divisão interior profunda; fundamenta-se não na ausência de todo sofrimento e de toda preocupação, mas na ausência de toda divisão interior profunda; fundamenta-se na unidade da nossa atitude para com Deus, para conosco e para com os outros.

Esta é a paz no trabalho-sem-descanso: Meu pai trabalha sem descanso. Eu também trabalharei (cf. Jo 5,17). O verdadeiro trabalho de Deus, que consiste em dar a vida e conservá-la, atrair cada ser para o seu próprio bem, não cessa, nem pode cessar. Assim, os que verdadeiramente estão associados ao trabalho divino não podem descansar jamais, porque nada é servil neste trabalho. Um apóstolo trabalha quando dorme, quando descansa, quando se distrai… Tudo isso é santo, é apostolado, é colaboração para o plano divino.

A paz cristã está fundada sobre esta unificação de todas as nossas potências de trabalho e de resistência, de todos os nossos desejos e ambições… Aquele que em princípio está assim unificado e que pouco a pouco leva à prática esta unificação, este tem a paz.

III. O zelo de Paulo

O apóstolo é um mártir ou permanece estéril. Procurar ao pregar o zelo, a abnegação, o heroísmo, que sejam virtudes cristãs que nasçam do exemplo e doutrina de Cristo. O zelo das almas é uma paixão ardente. Fundamenta-se no amor; é o seu aspecto conquistador e agressivo, e quando toca-se o ser amado, toca-se a ele mesmo. Assim Paulo: «fui crucificado junto com Cristo» (Gl 2,19), fica furioso quando toca-se a fé dos seus Gálatas… porque ele está identificado com Cristo: tocar essa fé é tocar ele mesmo. «Eu vivo, mas já não sou eu que vivo, pois é Cristo que vive em mim. Minha vida presente na carne, eu a vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e se entregou a si mesmo por mim» (Gl 2,20). Não se toca Cristo, senão passando por Paulo.

 
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