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39. Sejamos cristãos, isto é, amemos os nossos irmãos
 
     
 

Conferência sobre a orientação fundamental do catolicismo

«Sejamos cristãos, isto é, amemos os nossos irmãos». Neste pensamento lapidário, resume o grande Bossuet a sua concepção da moral cristã. Pouco antes dissera: «quem renuncia à caridade fraterna, renuncia à fé, abjura do cristianismo, afasta-se da escola de Jesus Cristo, isto é, da sua Igreja».

Esta é a Mensagem de Cristo: «Amarás o teu próximo como a ti mesmo» (Lc 10,27). A mensagem de Jesus foi compreendida em toda a sua força pelos seus colaboradores mais imediatos, os apóstolos: «Quem não ama seu irmão não nasceu de Deus» (1Jo 2,1). «Se alguém disser: “amo a Deus”, mas odeia o seu irmão, é um mentiroso» (1Jo 4,20). «Se alguém, possuindo os bens deste mundo, vê o seu irmão na necessidade e lhe fecha o coração, como permanecerá nele o amor de Deus?» (1Jo 3,17). Com que insistência inculca João esta idéia que é puro egoísmo pretender comprazer a Deus enquanto despreocupa-se do seu próximo.

Depois de recorrer tão rapidamente alguns textos escolhidos por acaso, não podemos deixar de concluir que não pode pretender chamar-se cristão quem fecha o seu coração ao próximo. Engana-se se quem pretende ser cristão vai com freqüência ao templo mas não à favela cortiço para aliviar as misérias dos pobres. Engana-se quem pensa com freqüência no céu, mas se esquece das misérias da terra em que vive. Não menos se enganam os jovens e adultos que se crêem bons porque não aceitam pensamentos grosseiros, mas que são incapazes de sacrificar-se pelos seus próximos. Um coração cristão tem que fechar-se aos maus pensamentos, mas também abrir-se aos pensamentos que são de caridade.

A primeira encíclica dirigida ao mundo cristão por São Pedro encerra um elogio tal da caridade que a coloca acima de todas as virtudes, inclusive da oração: «Levai, pois, uma vida de autodomínio e de sobriedade, dedicada à oração. Acima de tudo, cultivai, com todo o ardor, o amor mútuo» (1Pd 4,7-8).

Com maior cuidado que a pupila dos olhos deve ser olhada a caridade. A menor tibieza ou desvio voluntário para com um irmão, deliberadamente admitidos serão um estorvo mais ou menos grave à nossa união com Cristo. Ao comungar recebemos o Corpo físico de Cristo, Nosso Senhor, e não podemos, portanto, na nossa ação de graças rechaçar o seu Corpo Místico. É impossível que Cristo desça até nós com a sua graça e seja um princípio de união se guardamos ressentimento com algum dos seus membros.

Este amor ao próximo é fonte para nós dos maiores méritos que podemos alcançar porque é ele que oferece os maiores obstáculos. Amar a Deus em si mesmo é mais perfeito, mas, mais fácil; por outro lado, amar ao próximo, duro de caráter, desagradável, teimoso, egoísta, pede à alma uma grande generosidade para não desmaiar.

Este amor, já que todos formamos um só Corpo, há de ser universal, sem excluir ninguém, pois Cristo morreu por todos e todos estão chamados a formar parte do seu Reino. Portanto, também os pecadores devem ser objeto do nosso amor dado que podem voltar a ser membros do Corpo Místico de Cristo: que para eles se estenda, portanto, também o nosso carinho, a nossa delicadeza, o nosso desejo de fazer-lhes o bem, e que ao odiar o pecado não odiemos o pecador.

O amor ao próximo há de ser todo sobrenatural, isto é, amá-lo com o olhar posto em Deus, para alcançá-lo ou conservar-lhe a graça que o leva à bem-aventurança. Amar é querer bem, como diz Santo Tomás, e todo bem está subordinado ao bem supremo, por isso é tão nobre a ação de consagrar uma vida para conseguir para os outros os bens sobrenaturais que são os supremos valores da vida. Mas há também outras necessidades para ajudar: um pobre que precisa de pão, um enfermo que requer remédios, um triste que pede consolo, uma injustiça que pede reparação… e, sobretudo, os bens positivos que dever ser divididos, pois, ainda que não haja nenhuma dor que estancar há sempre uma capacidade de bem para receber.

A lei da caridade não é para nós lei morta, tem um modelo vivo que nos deu exemplo dela desde o primeiro ato da sua existência até a sua morte e continua dando-nos provas do seu amor na sua vida gloriosa: ele é Jesus Cristo. São Pedro, que viveu com Jesus três anos, resume-nos a sua vida dizendo que passou pelo mundo fazendo o bem.

Junto a estes grandes sinais de amor, mostra-nos a sua caridade com os leprosos que sarou, com os mortos que ressuscitou, com os adolorados aos quais aliviou. Consola Marta e Maria, na pena da morte do seu irmão, até bramar a sua dor, compadece-se da vergonha dos jovens esposos e para dissipá-la mudou a água em vinho; enfim, não teve dor que encontrasse no seu caminho que não aliviasse. Para nós o preceito de amar é recordar a palavra de Jesus: «Amai-vos uns aos outros como eu vos amei» (Jo 13,34). Como amou-nos Jesus!

Os verdadeiros cristãos, desde o princípio, compreenderam maravilhosamente o preceito do Senhor. Na esperança destes prodigiosos cristão é onde deve-se buscar a força para retemperar o nosso dever de amar, apesar dos ódios maciços como cordilheiras que nos cercam hoje por todas as partes.

Ao olhar esta terra, que é nossa, que nos destinou o Redentor; ao olhar os males do momento, o preceito de Cristo exige uma imperiosa necessidade: amemo-nos mutuamente. O sinal do cristão não é a espada, símbolo da força; nem a balança, símbolo da justiça; mas a cruz, símbolo do amor. Ser cristão significa amar os nossos irmãos como Cristo os amou.

 
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