Textos
41.
Reação cristã diante da angústia
 
     
 

Reflexão pessoal escrita em novembro de 1947

A alma que se purificou no amor com freqüência é atormentada pela angústia. Não a angústia da sua própria sorte: tem demasiado amor, espera profundamente, como para deter-se na consideração dos seus próprios males. Ela se sabe pequena e fraca, mas buscada por Deus e amada por Ele…

É a miséria do mundo que a angustia. A loucura dos homens, a sua ignorância, as suas ambições, as suas covardias, o egoísmo dos povos, o egoísmo das classes, a obstinação da burguesia que não compreende, a sua mediocridade moral, o chamado ardente e puro das massas, a vista tão curta, às vezes o ódio dos seus chefes. O esquecimento da justiça. A imensidade de favelas e pocilgas. Os salários insuficientes ou mal utilizados. O alcoolismo, a tuberculose, a sífilis, a promiscuidade, o ar impuro. O espetáculo banal, o espetáculo carnal, tantos bares, tantos cafés duvidosos, tanta necessidade de esquecimento, tanta evasão, tanto desperdício das formas da vida. Tanta mediocridade nos ricos como nos pobres. Uma humanidade louca, que se aturde com música barata e que logo se desanima.

A alma sente-se assustada por uma grande angústia. A miséria do mundo, que foi viver na sua alma, tortura a alma. O coração está quase estourando. Já não pode mais. As entranhas apertam-se, a angústia sobe do coração e estreitam a garganta.

O que fazer, Senhor? É preciso declarar-se impotente, aceitar a derrota, gritar: salve-se quem puder? Deve-se afastar deste arroio malcheiroso? É preciso escapar deste delírio?

Não. Todos estes homens são meus irmãos queridos, todos sem exceção alguma. Esperam que se os ilumine. Necessitam da Boa Nova. Estão dispostos a receberem a comunicação do Espírito, desde que lhes seja comunicada; desde que haja alguém que esteja perto deles, muito perto para compreendê-los e fá-los caminhar; desde que haja alguém que, antes de mais nada, ame apaixonadamente a verdade e a justiça, e que as viva intensamente.

Desde que haja alguém que seja capaz de libertá-los, de ajudá-los a descobrir a sua própria riqueza, a que está no seu interior, na luz verdadeira, na alegria fraternal, no desejo profundo de Deus.

Desde que quem queira ajudá-los tenha refletido bastante para captar todo o universo no seu olhar, o universo que busca Deus, o universo que leva o homem para fá-lo chegar a Deus, mediante a ajuda mútua dos irmãos, feitos para se amarem, para cooperarem na repartição eqüitativa das cargas e dos frutos; mediante a análise da realidade sobre a qual se deve atuar, pela previsão dos êxitos e das derrotas, pela intervenção inteligente, pela sabedoria política enfim reconquistada, pela adesão a toda verdade; pela adesão a Cristo na fé. Pela esperança. Pelo dom pleno de mim mesmo a Deus e à humanidade, e de todos aqueles aos quais vou levar a mensagem e acender a chama da verdade e do amor.

 
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